Confira abaixo duas matérias sobre a série produzida pela O2 Filmes em parceria com a Rede Globo, “Som e Fúria”, que estreia no próximo dia 07 de Julho. As matérias foram originalmente publicadas no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Folha Ilustrada”, no dia 22 de junho de 2009.
DE ÉDIPO À HAMLET
Galã nos anos 80, “doidão” nos 90 e algum tempo de geladeira depois, Felipe Camargo volta a papel de protagonista em série da Globo e é elogiado pelo diretor Fernando Meirelles
O ator em cena de “Som e Fúria”, de Fernando Meirelles
Quando tinha 26 anos, Felipe Camargo saía do mar, em Copacabana, e viu cinco garotas vindo em sua direção. “É ele! Ahhhh!”, gritavam por ter reconhecido o galã da série “Anos Dourados”. Era 1986, e o ator se sentia “alvo de fãs como as beatlemaníacas”.
Durou pouco. Menos de dez anos depois, foi-se o título de galã e entrou o de “doidão”. Felipe bebia, usava drogas e chegou a quebrar o braço da então mulher, Vera Fischer, numa das célebres brigas do casal que, diz ele, o afastaram da TV.
O ator ficou 17 anos sem interpretar um protagonista na Globo. Seu “perdão” veio com o convite de Fernando Meirelles para ser o personagem principal de “Som e Fúria”, série que estreia em 7 de julho (leia mais ao lado).
“O Felipe foi um achado”, afirma o diretor de “Cidade de Deus” e “Ensaio sobre a Cegueira”. “Tem o estofo e o talento para protagonizar uma série como esta e, ao mesmo tempo, por ter sido colocado em alguma geladeira que nunca entendi, trouxe também o frescor de um ator que parece que acabamos de conhecer.”
Felipe, 48, conta que já estava “desesperado”, há um ano sem papéis (sua última atuação foi em “Paixões Proibidas”, novela da Band) e de malas prontas para tentar trabalhar nos Estados Unidos. Agora, além de atuar nos 12 capítulos de “Som e Fúria”, assinou contrato de dois anos com a Globo.
“Eu acho que essa série me coloca no ponto onde eu comecei na Globo. Estreei como protagonista, em “Anos Dourados”, tinha 26 anos, fazia teatro há quatro ou cinco anos, e ninguém me conhecia”, diz o ator.
Em “Som e Fúria”, ele será Dante, ator de um grupo de teatro que tem um branco em cena, quando interpreta Hamlet, foge e volta sete anos depois, à frente da cia. Sans Argent (sem dinheiro). Ele acaba assumindo a direção do Municipal quando o amigo Oliveira (Pedro Paulo Rangel) sofre um acidente.
“Dante é o melhor personagem que eu já fiz. É um Hamlet às avessas. Enquanto o Hamlet vai para a morte, ele vai para a vida”, avalia. Felipe se identifica: “Eu quis viver, né?”.
Papéis secundários
Há três anos, o ator parou de beber e diz que está “legal há bastante tempo”. Mesmo assim, não conseguia nada além de papéis secundários. Para ele, seus problemas tiveram projeção muito grande, inclusive na classe artística.
“Eu era o primeiro ator da minha idade na Globo. Entrei em “Anos Dourados” como protagonista. Dali, eu fiz todos os trabalhos como protagonista. Estava protagonizando uma novela das oito e conheço a Vera Fischer”, lembra Felipe.
“Ela fica solteira e, aparentemente, a Vera é do Brasil. Chega um garotão de sucesso e se envolve com essa mulher. Eles têm um caso, um caso não tão calminho [risos], mas tanto é um casamento que há um fruto”, diz ele, que, após oito anos de brigas judiciais com Vera, obteve a guarda definitiva de Gabriel -pai e filho moram juntos desde 1997.
Além da relação com Vera, Felipe diz que “gostava de ficar doidão”. “Minha geração pegou um rabo dos hippies, da coisa do desbunde das drogas. Se você não era doidão, era o careta. Na zona sul [do Rio] dos anos 70, todo mundo era meio doidão, sabe? Fumava um baseadinho, bebia alguma coisa.”
O ator, que agora só fuma cigarro Bali Hai e corre na praia de manhã, diz que a vida é impiedosa. “Tenho sorte de ter tido uma segunda chance”.
Por AUDREY FURLANETO
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MEIRELLES EXPLORA CONFLITO DE DIRETORES
“Som & Fúria”, série da Globo dirigida por Fernando Meirelles (”Cidade de Deus”) que vai ao ar a partir do dia 7 de julho, expõe um conflito de diretores. Um tem o luxo de uma montagem no Teatro Municipal, mas com o cansaço dos anos vividos sob a sombra de um único sucesso.
O outro tem liberdade artística, mas falta público e dinheiro para fazer qualquer peça que seja. Cada um, a seu modo, tem inveja do outro.
E, como diz o ditado, a inveja mata. Pedro Paulo Rangel, o estável e veterano diretor artístico que monta pela enésima vez “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, vai ser a vítima atropelada.
Felipe Camargo, de espírito livre e alma atormentada, vai assumir a direção de uma temporada de clássicos no lugar do amigo, que volta para assombrá-lo e dar conselhos.
Tempos antes, Camargo foi um Hamlet impecável. Mas só por três dias, porque surtou durante um espetáculo e nunca mais voltou para colher os louros do sucesso.
Agora, ele se incumbe de montar “Hamlet” novamente. No papel principal, um astro da novela das sete vivido por um Daniel de Oliveira que convence tanto como um inexperiente ator de TV quanto nos monólogos de Shakespeare -alguém se lembrou de Wagner Moura?
Pouco dinheiro
No teatro, menos dinheiro é sinônimo de mais criatividade, parece ser a mensagem de Meirelles. Mas isso é apenas uma pequena parcela da série, que ganhou um compacto de menos de duas horas de duração. Este filme vai ser usado para divulgar a série em festivais de televisão no mundo.
Também há sexo, traições, homenagens a personalidades do teatro, trechos de “Hamlet”, piadas sobre os bastidores das artes. E uma iguana. Na televisão, essa miscelânea pode fazer um divertido sentido.
Por LUCIA VALENTIM RODRIGUES.
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