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Eu gosto de assistir a entrega do Oscar. E esse ano não foi diferente. Sentir a adrenalina dos concorrentes, esperar uma boa piada (uma boazinha sempre pinta), uma gafe, babar por uma mulher estonteante (mas normalmente mal vestida), essas coisas.

Às vezes você imagina: “se eu estivesse no lugar de um desses caras que ganharam um Oscar, como eu reagiria?”. Só fazendo um longa, sendo indicado pelo Brasil e depois ser aceito na seleção para concorrer a um Oscar de filme estrangeiro. It’s a long way.

Mas esse ano eu me emocionei de verdade quando surgiu no palco do Kodak Theatre um jovem senhor de 98 anos para receber um Oscar honorário pelo seu trabalho como diretor de arte. Trata-se de Robert Boyle. Tudo bem que aqui em nossas terras e, em muitas outras, ninguém saiba quem ele é. É um cara “das antigas”.

Para ajudar a quem quiser ter uma idéia da importância do trabalho desse homem, entre nesse link aqui.

Como gosto de assistir cinema, e para mim cinema não tem idade – só os filmes ruins têm – eu conhecia o nome dele de tanto aparecer nos créditos de clássicos de 1ª linha. Mas nunca havia visto o rosto do simpático e charmoso senhor. Foi uma gostosa emoção que ele e os membros da Academia Americana me proporcionaram.

Enquanto ele discursava, estavam sentados na platéia artistas como uma atriz de 20 anos (protagonista de Juno), os obviamente modernos/blasé irmãos Coen e senhores que sabiam muito bem quem estava ali na frente deles sendo homenageado. Dava para perceber algumas pessoas verdadeiramente emocionadas.

Envolvido pela emoção daquela homenagem, pensei se, um dia, aqui no Brasil também saberemos respeitar e admirar um homem pelo que ele fez, representa e representou para o cinema.

Será que aqui, algum dia, saberemos considerar um profissional pelo seu valor e capacidade e não pela sua idade e/ou aparência? Acho difícil, dadas as atuais circunstâncias. Nesse Brasil que entra no século 21 prometendo mundos e fundos (mais fundos do que mundos), a falta de consideração pelo o que é de fato valoroso, aqui é considerada uma virtude. Esse brazilian way of life é um Kafka ao quadrado: uma espécie de ode à malandragem. Uma prova atual disso? No cutucador filme de Zé Padilha, para continuarmos no mundo do cinema, o hino de um grupo estado/terrorista é encarado, por alguns brasileiros, como exaltação de alguma “virtude” - talvez essa “virtude” seja a da desconsideração pelo outro.

Vai demorar para sairmos dessa cilada, pois a virtude da consideração pelo outro se constrói do berço. A Academia Americana conseguiu nos mostrar isso quando disse: Robert Boyle, esse Oscar é seu!

Toniko Melo