Como criar a expectativa certa para um filme que ainda será lançado? O cinéfilo, esse ser que prefere muitas vezes ficção à realidade, acompanha todas as notícias relacionadas à produção de seus filmes preferidos. O interessado em cinema, ao contrário do grande público, não se guia somente pelo ator ou atriz que estampa o cartaz, mas sim por aqueles responsáveis pela produção do filme. Quanto mais paixão, mais fundo se vai, passa pelo diretor, chega ao fotógrafo, acompanha o roteirista e estaciona no editor.

Quando alguém faz sucesso, principalmente no cinema, cria-se uma forte vontade e curiosidade de assistir a obra seguinte. Comparações com o primeiro filme serão inevitáveis, críticas virão e o que antes era aposta, vira agora um compromisso com milhares de pessoas. Nesse turbilhão encontra-se o novo filme de Fernando Meirelles, Ensaio Sobre a Cegueira. A obra chegará ao grande público e não faltará paixão na análise que o filme receberá.

Acompanhei todas as notícias relacionadas ao filme. Lembro de ter sido o terceiro a comentar no blog de produção. Fiquei surpreso e ao mesmo tempo aliviado, quando soube que até um grande diretor como Meirelles enfrenta dúvidas e tem lá seus medos. O cinema visto através do making-of de qualquer DVD é uma indústria de certezas, visto através do blog do diretor é algo feito com muita humanidade. O filme, terceira adaptação de um livro conduzida pelo diretor, trata sobre a relação entre seres humanos, ou na falta dela. É preciso perder a visão para conseguir enxergar de verdade como somos.

Os desafios técnicos nesta nova produção são imensos. Realizar um filme que fala sobre perda de visão em um meio predominantemente visual não é tarefa fácil. A obra de Saramago não apresenta personagens com nomes, há muita violência, medo e caos. Indiferente do que dirá a crítica, serei uma pessoa em algum cinema do mundo ansioso para apreciar o filme. O elenco é formidável, as pessoas envolvidas extremamente competentes e o clima de mundo em colapso parece ter sido retratado fielmente, sobretudo nas cenas rodadas no caótico cenário que é a cidade de São Paulo.
Assim como o livro, esse filme não será simples. Não poderá ser feita uma análise superficial. Alguns talvez dirão que não há um caráter de entretenimento como teve Cidade de Deus, mas isso é justamente por tratar-se de um outro filme e ser uma obra única e sem precedentes. Precisamos ter consciência disso e tentar enxergar todas as camadas. Em um filme que fala sobre falta de visão, nada melhor que deixar os olhos bem abertos.

Carlos Daniel Reichel

O Cara - O Cara