Fernando Meirelles fala sobre “Ensaio Sobre a Cegueira” para a Revista da Folha
Publicado por admin em 08 Set 2008 | sob: Sem Categoria
Notícia originalmente publicada na Revista da Folha, no dia 07 de Setembro de 2008.

O diretor e o ator Mark Ruffalo durante pausa nas filmagens.
ENSAIO PARA A CEGUEIRA
por Fernando Meirelles
Pediram para que colocássemos vendas pretas, dessas que se usa em avião. Éramos umas 25 pessoas. Uma mão e uma voz nos ajudaram a entrar em vans e partimos sem saber para onde. Começou assim a oficina para o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, com toda a equipe, coordenada pelo preparador de elenco Chris Duvoort.
As vans rodaram por um tempo, pararam, as portas se abriram e saímos tateando em silêncio. Além de nos pedirem para não conversar, nada mais nos foi dito. De repente, um sininho tocou e instintivamente começamos a andar em sua direção. Na escuridão, qualquer referência parece um bote salva-vidas. Saímos tropeçando. Passavam carros. O calor na pele nos dizia se estávamos no sol ou na sombra. O sino entrou num espaço mais frio, que pelo eco parecia ser um galpão vazio. Ficamos vagando, descobrindo corredores e portas, mapeando o lugar mentalmente.
No início, ao esbarrarmos num companheiro, havia um certo desconforto. Pedíamos desculpas. Depois, cada encontrão era seguido de mãos que se tateavam e estabeleciam um código mudo na base de apertos, tapinhas etc. A dificuldade criou rapidamente uma intimidade que jamais teria acontecido sem as vendas. Fala-se que as crises despertam nossos instintos de grupo e nossa solidariedade adormecida. Nesse microcosmo, constatei o quanto a afirmação tem de verdade.
Centenas de pessoas em São Paulo e em Toronto passaram por esses exercícios, que duravam por volta de quatro horas.
Éramos submetidos a cheiros que cruzavam nosso caminho, sons, músicas que se alternavam. Sem a visão, experiências sensoriais parecem mais profundas. A visão ocupa a mente, não deixando espaço para vivenciarmos outras experiências, inclusive as que se passam dentro de nós. Não por acaso, fechamos os olhos para uma melodia, para meditar.
Em cada uma das sessões, havia quem se angustiava profundamente, se agarrava a alguma coisa ou se sentava no chão e chorava. Para outros, meu caso, o mundo sem visão pareceu confortável e prazeroso. Quando o sininho nos levou até um restaurante, pressenti que estávamos chegando ao fim e lamentei.
Deu para perceber que sem imagens qualquer culinária melhora muito. O sabor do macarrão alho e óleo pareceu extraordinário. Após o cafezinho, finalmente a voz reapareceu: “Podem tirar as vendas”. Demorei para fazê-lo e foi desagradável o bombardeio de cores, luzes e rostos cheios de expressões carregadas de significado. Em três minutos, a rica experiência do mergulho para dentro já havia se dissipado. Era como se aquela intimidade comigo mesmo se perdesse. Entendi finalmente porque o Homem da Venda Preta, Danny Glover no filme, fica tão apreensivo na cena final com a perspectiva de voltar a ver. Ele tem medo de que todos percam o que conquistaram com tanto sofrimento.
Curioso o homem. Temos a capacidade de adaptação das baratas e a memória de uma maçaneta. A maior parte das experiências que vivemos e que poderiam nos ensinar parece se dissipar como vapor. “Para onde vão?” Perguntaria o replicante no final de “Blade Runner”.
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