Segunda, 12 de Julho de 2010

Arquivo Diário

“O Método” na visão de um continuista

Publicado por admin em 12 Jul 2010 | sob: Sem Categoria

Caro Fernando,

Tomei a liberdade de te escrever este e-mail após ficar sabendo sobre “o método” através da imprensa . Achei que poderia contribuir para o debate dando a minha visão sobre este tema, que já venho discutindo com diversos diretores e montadores com os quais já trabalhei. Sou continuísta há 9 anos, já trabalhei em mais de 10 longas nos Estados Unidos (um deles coincidentemente com o mesmo produtor executivo de dois dos seus filmes, o Simon Channing Williams), mais uma dezena de filmes brasileiros, e também inúmeros comerciais estrangeiros rodados no Brasil.

No meu entender, quem sempre fez a ponte entre a filmagem e a montagem, entre o diretor e o montador, é a continuísta, inclusive em comerciais. Sinto uma desvalorização crescente da minha profissão aqui, onde muitos diretores acham que a continuísta está no set apenas para conferir questões de “continuidade” (sim, o nome da profissão realmente não ajuda muito!), quando, na verdade, um dos pilares desta profissão é a organização do material para a montagem, para que ele chegue claquetado corretamente, com indicações sobre o plano e também com informações precisas sobre os takes válidos. Um bom relatório de uma continuísta pode oferecer ao montador uma espécie de “mapa” para que ele possa montar o filme com mais eficiência e rapidez.

Venho observando com horror em alguns projetos em que por algum motivo resolvem subverter o clássico “claquete/ação/corta”, e eu já começo a calcular mentalmente a quantidade de horas que um assistente de montagem vai ficar lá tentando entender o que é aquilo, valeu ou não, e ainda sem referências para synchar o som quando muitas vezes são duas câmeras de dois formatos diferentes… resultando naqueles problemas que você tão bem já expôs nas suas declarações sobre “o método” e nos e-mails de outros profissionais.

Por outro lado, também fico um pouco decepcionada com alguns montadores que “desprezam” os boletins de continuidade, porque dizem com certa empáfia que “não montam com papel”. :-) Minha impressão é a de que cada vez mais eles vão tem que dar uma olhadinha nos tais boletins para poder encontrar os benditos planos com seus respectivos benditos números de clips que valeram no meio de tanto lixo digital.

Como até sugeriu a Flavia Zanini, eu entendo que a continuísta é o profissional adequado para organizar o material para a montagem, tanto em longas quanto em comerciais. É a pessoa que já tem prática em preencher este tipo de relatório, em checar e re-checar informações com os assistentes de câmera, e pode passar para o logger, depois para os assistentes de montagem, os montadores e finalizadores, um boletim preciso do que aconteceu durante a filmagem/gravação. A idéia de uma “continuísta” num comercial a princípio parece estranha, mas quanto mais o set vai se distanciando dos parâmetros já testados e aprovados durante 100 anos de história do cinema, mais esta função, que tem por princípio organizar e concentrar todas as informações num só documento, se torna necessária, poupando tempo e dinheiro na pós.

Desenvolvi alguns relatórios tanto para comerciais quanto para longas. Se você quiser, posso te posso te mandar alguns exemplos em pdf para te dar uma idéia do que estou falando.

Bom, vou me despedindo, Fernando, te desejo boa sorte na aplicação do “método”, pode ter certeza de que ele é muito bem-vindo!

um abraço,

Aline

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Aline,

Acho que esta nova situação com filmagens em digital deve trazer de volta as continuistas para o mercado. Quando se roda 40 minutos de material com claquetes, ter alguém no set para organizar o material ajuda mas não é indispensável, quando se roda horas aí a função faz toda a diferença.

Vou passar seu email para frente e ver se alguns diretores da O2 se interessam em incorporar a função.

Te agradeço o interesse.

Suerte

Fernando